domingo, 28 de fevereiro de 2010

Capítulo 2, Parte 3: Festim dos Corvos: Previsão


Cinco dias já se passaram desde que segui viagem com Kathryn. Na maior parte do tempo passamos calados, mas quando havia conversa nos mantivemos em assuntos do presente, como que caminho seguir, o que iríamos comer mais tarde ou aonde iríamos dormir. Era estranho.

Embora já tivesse notado que Kathryn fosse uma boa pessoa, ela era uma mulher muito fechada. Normal, creio eu. Não é fácil se abrir para um estranho, mesmo depois de aceitar viajar com ele sem destino.

Em certo momento da viagem, poucos minutos antes de anoitecer, resolvemos parar para comer e descansar. Enquanto há luz preparamos uma fogueira e começamos a assar o resto de carne que a moça trouxe de casa. Comento:

- Acho melhor caçar algum animal amanhã. Um coelho ou outro bicho do tipo.

- Tudo bem, o arco que eu trouxe ainda está em ótimas condições e com um bom número de flechas.

Olho para a aljava e comento:

- Dez, pelo que vejo. Vai servir bem. E acho que você vai se virar bem melhor que eu com esse arco. Nunca treinei com um, só com a espada.

Antes que nossa conversa continue, ouço uns sussurros estranhos, trazidos pelo vento. Intrigado, rapidamente olho para trás e vejo um estranho homem barbado, vestido com farrapos e pele de lobo, empunhando um cajado de madeira. Sério, ele diz:

- Você viu a morte ontem. E ela se manifestará mais duas vezes na sua frente em breve.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Capítulo 2, Parte 2: Festim dos Corvos: Kathryn


Ao abrir meus olhos, percebo que estou deitado em uma cama. Ainda estou na casa em que fomos atacados por Dullahan.

“Espere um pouco... eu não lembro de ter desmaiado na cama.” – penso. Lentamente me levanto e olho nos arredores. A cama deveria estar bem suja com o sangue de Myles, mas parece ter sido limpa antes que me deitassem nela. Então também vejo que Myles não está na casa e a porta está aberta.

Vou até lá fora e vejo uma bela moça, de cabelos ruivos e olhos verdes, terminando de enterrar alguém, que suspeito ser Myles. Pela luz do dia creio que estejamos no meio da tarde.

Antes que me veja, falo para a moça:

- Vejo que a casa é sua.

A moça se assusta. Ao me ver, ela volta a enterrar, falando:

- Quando eu voltava para cá ouvi o relinchar louco de um cavalo e vi um cavaleiro fugir desembestado da casa. Assim que entrei, te vi caído no chão e o rapaz morto, coberto de sangue. Logo vi que foi um ataque. Só não sei como não se machucou. Foi você quem fez isso?

Ela me interrogava, mas parecia não ter medo, mesmo se eu fosse um louco sedento por sangue e sexo. Para viver sozinha neste lugar, deve saber se defender bem. Ainda mais com a minha espada, que agora noto estar em sua posse, com a bainha presa em sua cintura, sem falar da pá em sua mão.

- O rapaz que você sepulta era um pobre coitado, vítima do emissário da morte. Escapei com muita sorte, mas foi uma sensação que não desejo a ninguém. Bem, talvez a alguns inimigos. – respondo.

- Você não parece mentir, mas acho que não contou tudo. Quem era aquele cavaleiro? Ele era estranho. Sugiro que saia antes dele voltar.

- Se eu lhe dissesse quem ele era, não acreditaria. Nem eu mesmo acredito direito. Mas não se preocupe, eu vou deixar sua casa. Só entrei aqui por estar desesperado, mas o perigo já passou.

- E para onde vai, viajante?

- Londres.

- Negócios a resolver?

- Vida nova a trilhar. Na verdade busco uma nova razão de viver. A minha já se foi.

- É uma pena, mas eu sei como é. Meu marido um dia simplesmente sumiu e me deixou aqui. Depois de chorar por ele por não sei quantos dias, achei melhor dar continuidade.

- Mas não é agonizante ficar todos os dias aqui sem contato com outras pessoas? Sem falar do perigo de bandidos e outras criaturas da noite.

- Eu sei me virar. Se não soubesse já teria ficado louca ou morrido.

As palavras da moça são frias, endurecidas. Tenho pena dessa vida que ela leva.

- Meu nome é Ryan McDnovan. Qual o seu nome?

- Kathryn.

- Hum... como eu disse, eu estou indo a Londres atrás de uma nova vida. Gostaria de ir atrás de uma nova para você também?

- Nem nos conhecemos, Ryan. Como eu posso confiar em você?

- Não disse que sabia se virar? Além do mais está com a minha espada.

- Tem razão. Se continuar aqui morrerei seca e louca.